1-Nascida de um interesse pedagógico a Reforma Pombalina em 1772, enfatizava e preconizava que “ nenhuma cousa pode contribuir mais para o adiantamento da História Natural, do que a vista contínua dos objectos. Acrescento eu, que a continuidade cria um laço “ afectivo” de e para o objecto. Era portanto ponto assente àquela data, que ver os objectos facultava uma consciência e conhecimento mais exacto do que qualquer descrição do objecto ,o que é natural e comprovadamente óbvio.
Manifestava na altura o recém criado Gabinete de História Natural que “ colecções fechadas nos seus gabinetes não produzem utilidade alguma de instrução pública” . Constatou-se à posteriori que a premissa dialéctica ficou-se por isso mesmo. Quando muito, mais alguns, poucos , continuaram a ter acesso a ver os “objectos”.
Existia uma nostalgia do tempo passado, como que um sentimento de culpa em relação ao destruído lá atrás. O culto à saudade, aos acervos valiosos e gloriosos era o fundamental.
Há uma tendência ( pouco democrática) onde prevalece a ideia de autoridade, onde importa é celebrar o poder ou o predomínio de um grupo social.(1)
Ressalta assim deste período o seguinte: são as Sociedades Eruditas ( Academia das Ciências de Lisboa, Sociedade de Geografia) mentoras e executoras do plano, portanto uma cúpula elitista que realiza o por elas próprias proposto. Decorrem as viagens em expedições ( imagina-se quem compunha estes grupos) debaixo de dois princípios: o científico e o estético. Sabemos como o científico foi suplantado pelo lado economicista: a Coroa Portuguesa mostrava interesse no desenvolvimento e na diversidade da Agricultura Colonial com intuitos puramente mercantis e a própria Academia das Ciências de Lisboa ( 1781) entre outras ideias faz saber “ que este tipo de colecção poderá desempenhar, sendo bem ordenada, no adiantamento das artes, comércio, manufacturas e todos os mais ramos da economia”.
No primeiro período da Museologia Portuguesa existiam na verdade variados “ Museus” que evocavam e mostravam vestígios ( memórias) do passado, , as condições de existência na Terra, das plantas e dos animais, mas o espírito científico foi reduzido e mal conduzido, mais parecendo a realização do objectivo de alguns, viajar para lugares exóticos. Atestando o atrás dito, a falta de rigor científico, a falta de informação precisa quanto à proveniência do espólio acumulado.
Os Jardins Botânicos e os Gabinetes de História Natural exprimiam ao nível das instituições , o modo de configurar o “real”, que permitia situar os seres humanos num sistema de identidades, transportado para a Sociedade que ajudava e reforçava o pensamento da diferenciação das classes, da hierarquização onde uns têm mais que outros.
2-No suposto surgimento dos Museus Públicos 1833-1910 a ideia do bem e do legado comum vai se tentar consciencializar pondo a nu, o carácter elitista e nada público. A grande massa de pessoas que se encontram afastadas dos espaços museológicos é enorme.
Reforçava-se a perspectiva ideológica, preconizando, a passagem do Privado para o Público.
Publicar é o acto de tornar conhecido de TODOS um determinado facto.
Sabemos que a língua comum transporta, à revelia da maioria daqueles que a usam, tradições de pensamento que condiciona a sua visão e concepção do mundo, a sua percepção da realidade(2)Daí que uma mesma palavra possa ter vários significados, refiro-me claro à não concretização da perspectiva ideológica, pois ainda hoje são “abertos” e não públicos.
O crescimento de Museus em Portugal não foi acompanhado de um incremento da correspondente Programação Museológica, detectando-se um conjunto de problemas, tais como a fraca atenção à investigação e ausência de áreas de trabalho técnico.
As sociedades científicas de carácter local constituídas seguiam como modelo a Associação dos Arqueólogos Portugueses curiosamente reconhecida como instituição pública em 1918.
O advento das duas guerras mundiais não deixou muito espaço e tempo para as preocupações museológicas, o que se compreende.
Após as duas guerras mundiais o Museu, continua, quanto à forma, denominaremos um museu Thanatos, porque, em termos programáticos limita-se a evocar, pontualmente, a vida comunitária, não suscitando os diálogos indispensáveis com o público e com a comunidade.(3)Saliente-se no entanto que a partir de 1930/40 a etnografia e a história regional assumem-se como componentes disciplinares mas a ideia política do Estado Novo de querer fazer parecer um Estado de unidade e coesão segrega qualquer outro ideal.
Década e meia depois, da segunda guerra mundial, Portugal vai começar a ter que lidar com o espírito nacionalista que irrompe ( em termos militares) nas suas colónias.
Os conceitos o “mais evoluído” o “mais civilizado” condicionam qualquer tipo de análise no sentido de se chegar à verdadeira plataforma no qual o ser humano reflecte o desejo de guardar a Informação. São os processos autoritários da imposição de novos valores.
O museu decorre de uma sucessão de felizes acasos.(4) Uma teoria, um método, uma proposta, devem ser avaliadas não em si mesmas, mas nas consequências que produzirem historicamente.
Refira-se por curiosidade que em 1967 começava-se a discutir o relacionamento do museu com a escola. Vê-se por aqui o quão longe ainda se estava do sempre referenciado “ ao público”.
Os museus portugueses foram e como linha geral, objectos de utilização política e ideológica, durante o século XX.
De tão maravilhados que ficamos com a tecnologia, a nossa atenção dispersa-se.
Os objectos não são apenas mostrados, mas também explicados e interpretados.
Ao silêncio dos objectos, juntou-se o som ambiental, a música de fundo. A rotação da peça, a variação da luz: o guia electrónico que nos fala quando nos aproximamos de um objecto. Há múltiplos processos de criação de diálogos interactivos entre a imagem e o som, entre o conceptor / museólogo e o visitante.(5) Repara-se que a funcionalidade da tecnologia faz maravilhas mas não traz grandes resultados sobre o cerne da questão: que será o da interiorização da ideia/objecto como fonte didáctica, do Saber-Saber. As transformações da produção industrial geram acumulativos consideráveis de objectos, logo à partida, em risco de desaparecerem motivados, pelo próprio ritmo da inovação tecnológica.
“Até onde o mecanicismo nos tem levado? Acho que ao isolamento e a um pouquíssimo ganho social. Destruições irreversíveis da Biosfera. Acumulação de lixos e detritos, de resíduos poluentes de mercadorias, redução dos seres humanos ao estatuto de mercadorias, perda dos valores essenciais.”(6)Acrescente-se aqui a também o acumular de graves desajustamentos de muitas soluções arquitectónicas.
Como complemento ao atrás exposto e para demonstração da alienação em relação ao conceito que se faz ainda hoje em dia citarei um estudo realizado em Ribeira Chã na Ilha de São Miguel e sobre o Denominado Museu Comunitário, e perante um inquérito realizado aos seus habitantes, apurou-se que o factor de maior importância, quanto à existência do Museu era a popularidade que ele trazia para a freguesia. Consegue-se aqui descortinar alguma intenção de preservação de uma memória colectiva rumo à apropriação do apreendido? Ou resume-se tudo outra vez a interesses mercantis?
A falta de um fio condutor origina assim formas interpretativas diferentes
O Etnólogo Marc Auge na sua obra Les Formes de l’oubli, remete-nos para a “necessidade do esquecimento”; segundo ele, o esquecimento é necessário à sociedade e ao indivíduo, a própria memória tem necessidade do esquecimento.
3- O Museu Edificação está ultrapassado.
A ideia central será a de expor as “Ideias” e não os objectos, por isso a Arquitectura deve-se adaptar ao programa (ideia) Museológica, mesmo que implique o desaparecimento do projecto de arquitectura.
A existência de laços de afecto com os monumentos, as personagens, os espaços, ajudam à sobrevivência do Património Cultural o que levará à participação comunitária, evitando as dificuldades de comunicação características do monólogo museográfico, empreendido pelos especialistas. A imagem museal no espaço social e no tempo social assim como no espaço fisico ajudará a que o objecto passe a ser entendido como produtor de conhecimento.
Os objectos têm várias histórias, vários contextos e que poder realmente temos nós para os “congelar” num? A transformação, o perecível, acompanham o ser humano desde sempre. A cristalização de um objecto num contexto, a tentativa desesperada da preservação do objecto no imobilismo não se coaduna lá muito bem com o nosso apregoado espírito de liberdade e de modernidade.
Estamos de acordo com a ideia de que as relações do ser humano com a natureza devem procurar uma dimensão diacrónica e sincrónica. Os objectos tornam-se mais apelativos e compreensíveis se inseridos no espaço onde se encontraram ou pertencem, ou dito por outras palavras, que estejam já ali à nossa disposição “agora e já”.
“A subespécie a que pertencem investigadores e epistemólogos não representa, só por esse facto, qualquer ponto de chegada evolutivo; e antigas expressões antropocêntricas tais como “ hominização”, “ cerebralização”, “limiar de consciência”, espiral evolutiva”, “caminhada para o homem”, devem ser definitivamente banidas do vocabulário paleoantropológico.”(7)
António Bracinha Vieira(8), afirmando o atrás exposto, coloca-nos perante uma das condicionantes, que nos leva quase sempre, a uma visão redutora do que realmente se passa à nossa volta. Se considerarmos o Meio Ambiente e todas as Espécies que nos acompanham como companheiros desta vida e não como subordinados ou abaixo da nossa “douta inteligência”, descobriremos novas plataformas para solução do que se aproxima.
Pois é disso mesmo que se trata: INOVAR!

Os museus são referências fascinantes para a compreensão da trajectória humana. Mais visível no campo das artes, o seu papel tem igual relevância na difusão de todas as ciências. E o passado não constitui seu único campo de trabalho, apesar da conotação mais corrente do termo que os denomina. Embora com declarada função preservacionista, os museus também reflectem seu tempo, contendo elementos de grande valia para que imaginemos o futuro.
Os museus, segundo o International Council Museums (Icom), são basicamente espaços voltados para o estudo, a educação e o entretenimento. A Associação Americana de Museus fixa espectro mais abrangente, contemplando na categoria até mesmo jardins botânicos e zoológicos, planetários, sociedades, casas e propriedades históricas. Mas, como sabemos, as definições sofrem o crivo da época em que foram elaboradas, nem sempre traduzindo o futuro sentido da coisa definida. Segundo o Dicionário Crítico de Política Cultural (Teixeira Coelho, Ed. Iluminuras, 1997), no Egipto, sob Ptolomeu I (século III a.C.), a palavra museu designava um local de debate e ensino de todo o saber definição idêntica à do papel hoje exercido pelas universidades.
Tudo tem uma forma e conteúdo. Falar portanto do Didáctico, da Formação, da Instrução, com a preocupação única de mostrar só a forma dos objectos e ideias, só nos afasta da verdade.
Por outras palavras se o que me move na preservação e transmissão da memória colectiva se esgota no ensejo que terei para a criação de postos de trabalho, ou na “rentabilização”, traímos assim o próprio espírito da Memória Colectiva.
Os museus “fazem o seu trabalho público”, mas o seu desenvolvimento situa-se num “sector profissional”, constitui portanto uma “elite cultural”.
As artes que o museu ressuscitou assemelham-se, mas, o seu domínio é mais vasto; as artes que o museu matou assemelham-se, mas, o seu domínio é mais complexo do que o de cada um deles.
As linguagens da arte não são semelhantes à palavra, mas irmãs secretas da música ( por razões diferentes das pressentidas quando a pintura rejeitou a imitação.)
O visitante do futuro não poderá evitar outra curiosa descoberta. Aqueles que visitam uma exposição de arte de vanguarda, que compram uma escultura “ incompreensível” ou que participam num happening estão vestidos e maquilhados segundo cânones da moda, trazem jeans ou fatos de marca, penteiam-se e pintam-se segundo o modelo de Beleza proposto pelas revistas impressas em papel couché, pelo cinema pela televisão, isto é pelos mass media. Seguem os ideias de Beleza propostos pelo mundo do consumo comercial, aquele mesmo contra qual se bateu durante anos a arte das vanguardas.
Como interpretar esta contradição? Sem procurar explicá-la, ela é a contradição típica dos nossos tempos.
Com um salto de quase três séculos, chega-se à máquina da Colónia Penal de Franz Kafka, onde engrenagem e instrumento de tortura se identificam, e o conjunto se torna de tal modo fascinante que o próprio carrasco chega a imolar-se para glória da sua criatura.
A questão da sustentabilidade económico-social dos museus, transversal às distintas correntes museológicas, é um aspecto que preocupa e é na verdade preocupante, porque já somos hoje confrontados com o aumento exponencial dos objectos que o ser humano fabrica. Até quando teremos a capacidade de resolver o problema da acumulação?
Há questões bastante específicas voltadas para os desafios enfrentados pelos museus, Museu de Arte Contemporânea, Museu de Arqueologia e Etnologia e Museu de Zoologia. A lógica institucional de cada um precisa ser constantemente repensada, incluindo o aprimoramento das estruturas decisórias pela existência de conselhos deliberativos, fixação de novos regimentos e objectivos estratégicos. Terá que se ter em conta, nessa tarefa, não somente as mudanças tecnológicas já referidas, que afectam os museus em geral, mas também a evolução das mentalidades para favorecer uma plena inserção dos museus universitários em actividades de pesquisa, ensino e extensão.
4- Partindo do pressuposto que o ideal, a ideia adjacente, do espaço museológico será a intenção da formação, educação, memória de todos, aberto, uma solução abrangente apresenta-se, ( aberto e exposto no quotidiano uma do cidadão comum, combaterá os gastos financeiros, exorbitantes da maioria dos projectos) como solução mais equilibrada e não tão dispendiosa.
Teremos que interiorizar definitiva e consistentemente a ideia do Perecível como inultrapassável. É irrevogável: existe um princípio um durante e um fim. Convém não esquecer que a essência do movimento da ideia Museológica é a PRESERVAÇÂO DO CONHECIMENTO e não dos objectos.
Portanto sem portas sem paredes e de acessibilidade total podendo ver e tocar-se tudo o que nos rodeia.
Aproximação dos espaços temporais numa forma de actualização permanente do conhecimento numa inserção plena e interactiva dos seres humanos.
A feitura de cópias dos elementos que se pretendem preservar, abre um campo mais aliciante para o potencial “cliente” da aprendizagem na medida em que ele pode tocar o objecto e o próprio objecto pode ganhar uma verdadeira dimensão didáctica na medida que poderão ser feitos cortes transversais ou de exposição do interior das obras.
O Património Cultural dentro dos seres humanos como forma de abolir as condicionantes psíquicas e sociais, que são no fundo as verdadeiras “paredes, muros, portas” a vencer.