2012-01-15
POR INSTANTES
2011-12-30
NO CHINGO
às portas do novo ano
2011-10-18
FRIO AZULADO
2011-06-28
A HABITAÇÃO TRADICIONAL ANGOLANA
2011-06-03
A FORMAÇÃO PROFISSIONAL COMO INVESTIMENTO PRODUTIVO
A melhor maneira de resolver um problema organizacional será a da formação profissional. Novas qualificações técnico comportamentais dos formandos induzida pela intervenção formativa.
A transformação como componente essencial da gestão e mobilização dos recursos humanos:
Objectivos organizacionais ( Organização solicitadora).
Objectivos de formação (Organização fornecedora).
Objectivos pedagógicos ( O Formador define).
“ O Ser Humano é um ser relacional”
“Eu sou eu e a minha situação”
(Ortega e Gasset)
Relação adequada entre a formação e a situação de trabalho baseada em planos de planificação.
“O capital intangível” será a associação (junção) das qualificações individuais e as capacidades colectivas. O colectivo como supra sumo para o bem comum.
-Teremos assim, o solicitador a colocar o problema “real”-.
-O Fornecedor a transformar o problema em termos formativos ( ou de formação)-.
DETECÇÃO DE NECESSIDADES DE FORMAÇÃO (DNF)
A FORMAÇÃO TRANSFORMA-SE EM INVESTIMENTO PRODUTIVO E NÃO CUSTO ORGANIZACIONAL.
Cito agora quatro tipos de interesses organizacionais complementares entre si, mas muitas vezes contraditórios:
O interesse organizacional global – nível estratégico;
O interesse dos sectores intermédios da organização – nível táctico;
O interesse dos serviços de primeira linha – nível pragmático;
O interesse dos funcionários individualmente considerados – nível pessoal.
A hierarquização apontada não é arbitrária, pois que o primeiro interesse deve sempre sobrepor-se ao segundo, o primeiro e o segundo ao terceiro e estes três ao último.
COMO SE FAZ?
→ Balanço dos resultados do(s) ano(s) anterior(s);
→ Directrizes emanadas dos órgãos de direcção e de gestão estratégica;
→ Análise da situação envolvente e da sua evolução no futuro próximo;
→ Entrevistas e/ou Questionários adequados a cada um dos níveis considerados.
Podemos assim avançar na construção do nosso sistema de formação:
SISTEMA DE FORMAÇÃO
Organização que solicita → Problema objectivo → Solicitação/ Encomenda
↓
Organização que fornece → Detecção Necessidades de Formação→ Resposta Formativa
Estaremos, pois inseridos no ciclo de formação
2011-05-15
INFEDILIDADES
2011-05-11
REGRESSO ANTECIPADO
Assim mesmo me foi dito pelo secular Imbondeiro
aqui no plácido regresso,acidez da mucua na boca!
A sua sombra projecta me para além de mim
minha carne a contorcer se perante a fome e a sede do meu povo
nos olhos do Matrindindi a tristeza de promessas por cumprir
o rio incansável a descer as sinuosidades dos percalços.
Está um sol abrasador, a ferver me a alma
nos cíclicos entraves da memória
sinto a pele enegrecida,pelos brilhos da lua
que me arde por dentro do tecido célula.
Recosto me suavemente na solidez do Imbondeiro
espero e vejo o tempo a passar
escoando se por entre dedos
um talo de capim entre dentes.
2009-08-14
Óbito
Um remoinho pode nascer a partir de um processo que produz desordem ( turbulência).
Segundo alguns o Universo começou com uma desintegração ( Big Bang) para se organizar.
" Viver da morte, morrer da vida" Heráclito - VI a. C.
Kimangola entrou em turbulência e desintegrou se, não sem antes confessar que "estava farto da esquizofrénica dicotomia cartesiana".Sic!
Assim o Kimangola não faz mais parte deste Universo, quem sabe se partiu em busca de outros Universos?
2009-08-09
Decálogo
Decálogo proposto por Bertrand Russel.
1-Não tenhas certeza absoluta de nada.
2-Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3-Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4-Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5-Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6-Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7-Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8-Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9-Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10-Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
2009-07-25
POEMA ANDRÓGENO

...há um ponto no ventre
flor-espada ardendo
entre pernas
anjo incolor á face dos abismos
tunel sem fim desfiando se
numa sede de caminhos
verticais na brancura
os desejos equilibrando se
em arestas invisíveis
à luz da aurora sorviam me
escorrimentos
eu vi
senti
leite aflorando me
as entranhas
escamas de prata maré alta
perfil
fera ou serpente
desflorou me ventos
eram demónios
ou deuses
guiando meus dedos
invulneráveis
chamam
um todo
tensa manhã
rasgada em limbo
lábios
gotejando...
2009-07-17
Furo no Abismo
esao-andrewsVertendo suores num cataclismo.
Os ventos estavam mudos
Homens plasmados, sisudos.
Lentamente na minha alma
Déspota angústia calma
Faz me trevas e telas
Recortando as mazelas.
Contemplando o oitavo
Vejo a dobrar um avo
Naquele mar monstruoso
Desenha se algo incestuoso,
As florestas quais catedrais
Eterno luto, querem mais
Esse riso, amargo insulto
Esculpido no velho culto.
Rígido e inexorável leme
Irónico e fatal geme
Ferido plo mistério
Desaba o império.
Efémera púdica beldade
Encenarei célere a eternidade.
Estralejando qual tufão
Excêntrico e plúmbeo,então.
2009-07-15
Nem para la, nem para cá...

No caminho rumo ao futuro o NÃO é estrada multiformecolorida, esvoaça se nela; o “andar” não pertence ao excelso ser.
Será ela ( a dialéctica) uma médica, uma curandeira , vidente, de um remédio viciante da humanidade ?
O fanatismo com que tratamos, professamos a racionalização é o nosso último recurso? A Salvação? A Messias?
Directo e simples, sabemos hoje; a racionaliddae fanática postula a morte do “instinto humano”, é mais uma enfermidade.
Atente se no problema do erro e da aparência, requere se uma atenção viva e desligada dos cânones, é que o sabor essencial da linguagem é a sua maravilhosa ambiguidade e a catástrofe semântica é um cenário (in)perfeitamente possível.
Temos também a confusão- o erro de confundir causa e efeito – e saiba se que a religião e a moral são imperativas.
O mais infame conceito, o livre arbítrio, foi inventado para nos responsabilizar, nos tornar dependentes; somos imaginados ser “livres” para podermos exercer a culpa , o castigo.
O devir só pode ser inocente.
2009-07-11
2009-07-05
Mundo sem Abelhas
Boddan-zwirEm todas as velhas e imutáveis caras, enfatuadas, reconheço um leve toque humano, um pleno tempo de aridez corre lhes nas veias.
Nos arrabaldes da ainda habitável cidade, embora haja um sentido báquico predominante, um ou outro grito de alegria de criança vai rareando, são as mães que mais choram os porquês.
Ao som da sirene fiquei desperto e ouvi chover, os corpos transeuntes cruzam se uns com os outros, parecem me de olhos cerrados, palas cobrem suas orelhas e os placards publicitários fazem promessas sobre o estado perfeito, e não sei porquê, em todos eles vejo aves de rapina retratadas com sumptuosas vestes. Mesmo ali ao lado, ficara já com os olhos feridos perante o brilho do aço em faca, espetada num corpo, que por acaso até era a “mulher dele”. Um homem defendera a “sua honra”, a sua propriedade que será uma forma de “Mulherclavagismo”, invocando Abraxas, grave culpa pulsando entre diáfanas canduras.
No outro dia lembrei me: as Mães que não amamentam seus filhos artificializam em boião, alimento préfabricado, amam verdadeiramente suas crias? Ou o problema estético ultrapassa o afectivo daí essa frieza humana?
Os portugueses são pobres, mas felizes, diz a Socióloga encartada e destinos espirituais para férias são a nova moda dizem os promotores.
O perigo da extinção das abelhas é real. O Mundo sem abelhas não será o mesmo e a catástrofe seria fatal. O ecosistema seria alterado e daria razão a Albert Einstein que afirmou que não resistiríamos mais de 4 dias sem abelhas.
Deus salve a Rainha ( a das abelhas claro)!
2009-07-01
Negra claridade
2009-06-24
Caricaturando… já se sâabe!
2009-06-20
RAZÃO EXPLOSÃO
2009-06-13
Círculos Viciosos
OUVI UM DIA DIZER: que o pensamento fala quando escuta...
A linguagem do silêncio é a antecâmera do discurso, sendo os dois, amantes empedernidos, quase em fúria.
Portanto não será estranho dizer que o modo sublime e profundo do ser está, também intrincado com o pensamento a falar.
Poucos escutam...quase nenhuns...
Flutuamos e movemo nos, rigorosamente no limiar de um mero conhecimento verbal, que está sempre disponível. Mas não questionamos e assim perde se a “presença”.
Como serei “ ser genuíno” se nunca questiono?
Curioso é que quando nos calamos, tudo vibra impregnado do originarium, e o campo do não dito é mais amplo e criativo precisamente por ser não dito.A ofensa verbal/ palavreal nunca chega a aparecer. Não há mentiras nem desenganos
Pois é, os círculos viciosos “drogam nos”, bla, bla, bla, para aqui, bla,bla,bla, para ali, eruditos e palavrosos, somos uns Ases.
será assim um pedido desmedido desejar um bocadinho mais de ser nas nossas vidas?
NOUTRO DIA OUVI DIZER: no sentido do ser não há “círculos viciosos”...
2009-05-31
Evasiva , Elusão e a Cesta de Fruta
Uma cesta de fruta no requebro da anca, poisada, frutos amadurecendo na boca pasmada de Elusão, enquanto Evasiva ondulava calçada acima em direcão ao Mercado da Fruta.
Elusão magicava aproximações desde que começara a sentir palpitações nos seus dentros para ela. As distâncias de Evasiva eram enormes, virgem se mantinha, guardava se para aquele melhor momento, ouvira da velha Guiana sua criadora, a promessa que assim seria.
Elusão rapaz guerreiro, trabalha de sol a sol, é porém ingénuo, nada sabe de tais desígnios, conhece porém de ver, as aves fujidias e tem a constante pulsão para ela e cego de ver, idealiza sucessos, sonhos de amor perfumados.
E o tempo passando... as formas amadurecendo em Evasiva... algo em Elusão crescia... agora que aprendera de tanto ver o requebrar, sabia de alguns porquês, e arquitectava com artes primorosas a forma da abordagem.
Evasiva na sua imcumbência do negócio da fruta, leva frutos amadurecidos, e traz uma leveza ainda maior no seu jogo de ancas, depois da cesta vazia, e distraída não se apercebe dos apetites que desperta. Só tem ouvidos e olhos para sua criadora, a velha Guiana ,que a arrancara dos dentes da fera. Evasiva fora criança abandonada em meio de uma grande selva. Do domínio dos animais buscara a velha Guiana o alimento nas tetas de uma felina, assim foram os alicerces de Evasiva.
Um dia, o que parecia ser o tal melhor momento, Evasiva olhara nos olhos de Elusão, pela primeira vez; surpreso estranhou o porquê do olhar de cesta vazia, mas aceitou o sinal recebido e jogou seu corpo na calçada quente feito tapete para Evasiva que descalça não recusou pôr sua planta do pé, nos lábios dele, recebendo um beijo virginal de quentura maior que a calçada e olhando para baixo viu brilhos oblíquos nos olhos de Elusão.
A velha Guiana não estava no lugar de sempre, naquele dia conhecera , lá em baixo, junto ao mar um príncipe jovem chegado na maré vazia que a carregou nos braços amorosos da maré cheia.
Ficava Evasiva sem respostas, os planos de Elusão foram se por águas de mar abaixo e o cesto de fruta sem anca requebro para viver.
Moral: Nem sempre as profecias se realizam e o amor surge donde menos se espera.
2009-05-22
VUL VA (CÂ) NICA
Menstrual para afogar
as forças testiculares e telúricas do Pai.
A Mãe.
Caverna ou cova vulva mater revisitada,
de uma outra boca, verbo da boca
crua e doce.
Vulva virgem e viúva, negra da aranha?
Para não dizer lábios de língua lésbica dos
LÁBIOS DA VULVA..
A vagina é viva por e de Vénus,
vitalidade vúlvica rasga os ventres.
No minete, será Vulcano?
Ora, ora, uma vulva sempre virgem,
a Mariana, apesar dos filhos dos filhos…
A visão vincula as vulvas ou o contrário?
De seiva vermelha vincada é regular ou não.
Alguns dizem:
Vulva vampírica de dentes cerrados.
O vampiro suga, não jorra sangue.
Um pennis mastro, para navegar…
uma ideia dos oceânicos…
vulva de fogo queimando…
O QUÊ ???
A volva da serpente se dentada é víbora.
Fenda.
Fendada se em mãos de fada.
Fendida se em mãos de ferida.
2009-05-09
…a um qualquer professor…
um desejo, reprimido, gradualmente passivo se torna,
activa a sombra dele mesmo.
no paraíso perdido : a razão, aos seus olhos, o desejo tinha sido expulso,
um arcanjo primitivo chamado satanás, dissera,
alguém roubara o abismo para fazer um céu.
a energia era o prazer eterno.
a contemplação o bem da razão.
houvera nuvens famintas sobre o abismo, nascera assim o caminho do perigo,
chegando ao rio circular do tempo, fluindo entre eva e adão, vê se ser sempre
o mesmo rio, sempre o mutável rio…
caiem as folhas todas, soltas, de um todo resto.
o tempo deu nos teias nos olhos e corpos,
os enredos em insignificâncias ilusionam mundos
eventualmente,
um discurso ornamentado de sims , nãos e tal vezes e outras nuances.
tropeçado na pedra, que não a filosofal, aquela outra… a vulgar da suada calçada,
mãos calosas,
elaborachorosas queixas,
datas… nomes… datas… ismos… inodoros conteúdos.
uma vida sábiamente ondulada em ritmanálise
desembaraçamento da alma, das falsas promessas,
exige se
2009-05-02
GUERRA E PAZ - Continuidade da Barbárie
1 – INTRODUÇÃO
O mais irresolvido dos problemas é o ser humano, uma vez que põe ainda em jogo todas as suas relações com a existência.
A dualidade que acompanha o ser humano desde os primórdios parece estar de pedra e cal e enraizado na nossa memória cognitiva colectiva.
A animalidade é ou não uma característica humana? A Antropologia do bem e do mal, domina-nos? Admitamos que essa é a nossa “realidade” . A história dá-nos múltiplos exemplos desta animalidade, este exercício da violência que parece sempre atrair o ser humano, e evocando as mais díspares “ razões” manifesta-se continuamente.
Na Mitologia nem mesmo com a “existência” de vários Deuses, como entidades castigadoras ou recompensadoras não funcionou. Os Gregos juntaram a estes Deuses o Logos , introduzindo a Filosofia que parecia ser a panaceia de todos os males, mas na verdade e concretamente introduziu novos caminhos para a dialéctica mas a animalidade continuava viva e recomendava-se.
O Cristianismo, encetando a viagem do monoteísmo, apresentando-nos o Único e Verdadeiro Deus e realizando o acto expiador da carne ( Jesus Cristo e a Ressurreição), na esperança de que havendo um Deus real que castigava ( O Inferno) ou recompensava ( Paraíso) que o animal desapareceria, cedo ficou demonstrado que esta animalidade era também parte intrínseca da própria Religião e da qual citarei as manifestações da Inquisição.
Mais perto de nós Kant também chega à conclusão que “… a animalidade é, nas suas expressões, anterior e no fundo mais potente do que a pura humanidade…”1, embora preconizasse o caminho para a paz perpétua. A história que veio depois de Kant demonstra–nos até a saciedade a existência desta animalidade.
Discutimos até ao infinito as utopias políticas mais variadas, demasiados ocupados em fazer triunfar este ou aquele sistema social ou esta ou aquela doutrina mas não tratamos do problema da felicidade da eliminação da animalidade pois que reconhecidamente ela está em nós.
Não cabe aqui nesta reflexão o apontar das soluções, mas tão só uma análise e demonstração da animalidade do ser humano através dos tempos, que parece querer perpetuar-se.
2 – A BARBÁRIE
O pensamento europeu começa com os Gregos. Foi na cultura Grega que teve lugar a “descoberta do espírito” a “ afirmação da consciência” e que foi formulando a procura constante de respostas para o que é - o corpo, a individualidade, o livre arbítrio - e outras funções espirituais.
No processo do mito para o logos, já marcavam presença as manifestações da “animalidade” ou dito de outra forma, uma tendência do ser humano para a violência, uma inclinação para o mal.
Com a chegada da Filosofia e até porque é da cultura grega a apologia de que os bárbaros eram os outros, portanto uma constatação de que existia “ uma barbárie” se partiria para um processo, se pelo menos não da eliminação total, mas um controlo mais eficaz sobre o instinto de violência.
Aristóteles lidou com o movimento real, que é uma questão da experiência comum, Galileu e Newton atingem os seus conceitos teóricos afastados da nossa experiência sensitiva. O ser humano natural e o ser humano artificial continuam a ser as estrelas da companhia numa interminável fobia da elaboração de noções teóricas que nada explicam, segundo Kenneth N. Waltz2
Num esboço antropológico da barbárie humana convém atentar no desdobramento pelo menos dual que contrapondo o Homo sapiens, temos o Homo demens capaz de delírio, de demência. Segundo Edgar Morin é evidente que a origem desta barbárie humana, encontra se naquele lado “demens”, produtor de delírio, de ódio, de desprezo3.
As virtualidades da barbárie não foram nem são as mesmas nas diferentes sociedades que este Homo vai edificando. A barbárie não é assim um elemento que acompanha a civilização, é parte integrante dela. A civilização produz barbárie: conquista e dominação. A conquista romana, por exemplo, foi uma das mais bárbaras de toda a Antiguidade: o saque de Corinto na Grécia, o cerco de Numância em Espanha, a destruição de Cartago etc. O Cristianismo com toda a sua construção teológica vai ser protagonista de inúmeras barbáries, será parte activa nas Cruzadas, acompanhará com a bíblia na mão a saga do esclavagismo e para não ser exaustivo, a tenebrosa Inquisição.
Com a nossa entrada no mundo heliocêntrico, que traz consigo novas técnicas, que no plano militar vão tornar o saldo da barbárie substancialmente maior. Seremos mais rápidos e eficazes na arte de tirar a vida a outrem.
A nação, que supostamente é uma invenção europeia será construída sobre a base de uma purificação religiosa e vai adquirir, progressivamente, um carácter étnico. O século XX permitiu-nos medir a barbárie produzida pela ideia de nação quando assente numa vontade de purificação étnica.
No século XVI ao impulso das cidades junta-se a formação de nações modernas, a herança grega que continuava fechada no interior do discurso teológico, retorna agora libertando-se da grilheta teológica ( o pensamento autonomiza-se ) com resultados imediatos no campo das ciências. O Humanismo que vai surgir continua a ter na sua composição a coexistência do sapiens e do demens mais agora que a Ciência irrompe triunfante e pela voz de Descartes preconiza: fazer do ser humano o senhor e possuidor da Natureza. Esta mensagem será retomada por figuras como Buffon e depois por Karl Marx e só bem há pouco tempo, a “ideia” do todo poderoso promoteico se desfez em migalhas. O controlo da natureza que no real é incontrolável, conduz à degradação da biosfera e por consequência da sociedade humana, da vida. Esta forma de barbárie apresenta contornos assustadores: uma barbárie suicidária, seguramente com o Homo demens como protagonista principal. Repare-se no grau de demência do processo do proletariado industrial, uma espécie de Messias, a revolução como o apocalipse, o ajuste de contas e a sociedade sem classes, a salvação terrestre4.
O exemplo de Napoleão, o fenómeno da Colonização e a primeira Grande Guerra como referências finais.
O problema é assim bastante complexo pois as tendências bárbaras são vizinhas das tendências civilizadoras. Formas refinadas de civilização surgiram também no seio das nações que praticaram e praticam a barbárie. Talvez seja esta a sedução.
3 – CONCLUSÃO
“ O Éden é sempre adiado. E a posteridade laica da dor cristã será fácil: hegeliana que vê nos tormentos sofridos pelos povos no decurso do tempo as etapas necessárias do espírito que são necessárias percorrer para que se cumpra; marxista que celebra na violência o parto da História e prega o desapossamento das classes exploradoras para alcançar a edificação de uma sociedade perfeita; nietzscheniana que exalta a crueldade e o mal como meios para seleccionar os mais fortes e de melhorar a espécie humana; e em geral, todas as ideologias que determinam a imolação da parte em benefício do todo”.
Pascal Bruckner
Mestre em Filosofia e Doutorado em Letras
BIBLIOGRAFIA
MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007.
BRUCKNER, Pascal, A euforia perpétua, Lisboa, Editorial Notícias, 2002.
PHILOSOPHICA, Perspectivas e fronteiras do humano, Lisboa, Edições Colibri, 2008
SNELL, Bruno, A descoberta do espírito, Lisboa, edições 70, 1992.
WALTZ, Kenneth N., Teoria das relações internacionais, Lisboa, Gradiva, 2002.
WATKINS, J.W.N.,Ciência e cepticismo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
1 KANT, Immanuel, Anthropologie in pragmatischer Hinsicht, Akademie Textausgabe, vol.VII, P.,327.
2 WALTZ, Kenneth N., Teoria das relações internacionais, Lisboa, gradiva, 2002, p.21.
3 MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007, p.,10.
4 MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Lisboa, Instituto Piaget, 2007, p.,39.
2009-04-18
AFRICANIDADE ( 1 )
Retrato de Neves de Sousa- por Paiva de CarvalhoAlbano Neves e Sousa fazia etnologia pintando ou vice versa. A sua obra assume um valor extraordinário, no contexto da preservação de um património que é de todos. O rigor na retratação dos usos e costumes dos povos observados, aliada à capacidade de observação ao ínfimo pormenor dizem nos também de uma alma sensível transpirando Africanidade por todos os poros. Neves e Sousa pintou, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné,Namíbia seguindo mesmo as raízes que se estenderam para o Brasil. Eu tenho um orgulho do tamanho do Mundo sobre a obra de Neves e Sousa.
2009-04-12
TERNURA

Num dialecto manso
que detalhe se esgrimiu no céu?
A sombra penetra,
safira,
cicatriz de onde se desprendem as ondas,
corais mordendo o meu sossego.
Sem disfarce,
morria de não semear, o tempo,
por vezes…
Há um rosto, um perfume,
a gravidez da terra protegida,
na saliva da memória um inverso parto,
desenha se, só o chão se espanta.
Que sina sou eu?
Qual a montanha que desci?
Incesto do passado, o passado perdido.
O passado?
O coração não é carne.
Chorei para dentro de mim
o tempo da véspera subtil,
uma simetria horizontal desertou em mim,
o trajecto dissoluto e calcinado,
deixei o sol sobre o verão
num céu que voava.
Um coágulo de saudade.
2009-04-02
ENCURRALADA
encurralada mas não receosa, inclinando o corpo por ser mais defensivo, aliciante a fenda peitoral mostra-se e visível oferece-se, o olhar, nos olhos da transformação.
Kasbah, sabe que nas funções biológicas, as duas pulsões fundamentais são antagónicas ou bem combinadas. subverterá a verdade e o erro com um complexo de regras, fará predominar a própria opinião, com meios e expedientes fazendo que o branco se torne negro e este naquele.
por um breve momento, algo de indefinido, mas decisivo, altera-se na forma observada, não resistindo desfaz-se, ante o apelo peitoral, em partículas líquidas, já é um rio de emoções que se aproxima.
encurralada… espera o convite…
2009-03-22
Siso Ardente
Da sequência A luta pelo Amor:Paixões humanas: gozo, 1904 - Alberto Martini
Porquê a poesia e não outro objecto qualquer?
a dor ardente de um siso a crescer, a resposta estava ali a brilhar.
Pontapé no vento a mergulhar em sereno desafio, as maneiras de ser humano. Arranco me estrelas, deito me ao luar , invento me um deus, que me chama de viva voz.
O transparente da janela, observa me os gestos, encontro me parado, o rosto erecto, preso ao teu olhar, dois lábios esmagados, coração a arder mísero mendigo, como se o florir fosse um mal, abrindo sulcos de arrepio ,na nossa eternidade em luta e cio.
Sombra pairando em nós, como um véu pesado, imagens, sonhos versos comovidos.
O meu olhar é um lago, vejo te espelhada, a dormir.
Gostava de te explicar e poder eu próprio compreender: eu seria a palavra, tu o corpo da doce fala, sem recear o mal que me aguardava.
Um meigo jardim, espinhado de rosas, a crueza das coisas, a chuva que arde.
De onde venho?
!!!do uivo entre o abismo e coisa nenhuma onde me apaixono
adolescentemente.
Ps. O dente do siso não está presente em todas as pessoas, algumas vezes porque a pessoa não tem o germe dentário deste dente e outras vezes porque ele não erupcionou por falta de espaço na arcada dental ou por estar na posição "errada" dentro do osso.
2009-03-11
F®icções
Estamos sentados de costas, olhamos portanto dois caminhos.
O dela feito de jardins circulares, felinos passeiam se por lá e de cada vez que o sol sorri há um gemido.
O meu é feito de flores em algodão como o tecido da blusa da mulher que esperava um trem por descarrilar. Primeiro, uma luz, um raio só, por cima do Girassol de costas para o sol, lá ao fundo uma orla nas costas das crianças que brincam com berlindes.
Ao nosso lado, levado nos braços de alguém, um momento de inconsciência, projecta as sílabas que um ditador qualquer esquecera de nos dar.
Não estamos isolados, nem somos, as aves penas, nem os voos rasantes. Basta nos a água fria de encontro aos rostos.
Certas manhãs, ocupado com meus avessos, mais que uma vez, reparara que o Girassol não se virava para o sol; não é que me importasse, o frio era já em mim tanto que a luz da lua me bastava para aquecer. Tu nunca ias para longe e depois da chuva enovelavas te, casca de caracol transformada.
Conte me o seu nascimento, pediu ela.
Não me lembro , disse, depois de pensar um pouco. A única certeza era um espaço com Acácias e Fucsias plantadas e nele me via acordado.
Então fechando os olhos, inventava lhe as palavras desejadas, abertas, criava lhe uma esteira onde ela se deitava de perfil.
Lá fora, a chuva fica mais forte. Tens os cabelos desmanchados, os meus dedos assim o quiseram, beijo te apressadamente na boca e fugimos os dois pela clarabóia, montados no mágico tapete. Regressarás, com o tempo sempre a correr, pelo Mar: espero por ti, os pés molhados na areia seca, três minúsculos caranguejos, passeiam se para lá e para cá, eram a guarda de honra deste solene acontecimento.
Porque nada era claro, ao longo da superfície espelhada da areia, por momentos as ondas estáticas observam o que de estranho lhes parecera, enquanto eu e Krisális em passos furtivos o azul portão fechávamos, atrás de nós.
Do lado de fora da casa um cão rafeiro sentado debaixo do parapeito coberto de Malmequeres amarelos, num aproximado gesto humano, palita os dentes, displicentemente.
Krisális estranhara o observado, mas entra pressurosa, os olhos semicerrados, procurando compreender a penumbra interior, o silêncio do Mar entrava janelas adentro. Krisális enrolada no cobertor verde, agora é noite, pensa, não se vê o Mar, adorava imaginar as casas iluminadas umas dentro de outras com os cantos preenchidos de estrelas, e os querubins entoando suaves cânticos por companhia…
2009-03-01
Amizade? Posse?
Olhares.com2009-02-16
Um "Magnífico" Reitor
Pungo Andongo -AngolaO Magnífico Reitor da Universidade de Évora, convenhamos que terá sido pouco magnífico nas afirmações que proferiu numa estação de televisão portuguesa dia (15-02-09) e a propósito da língua portuguesa, no contexto das lusofonias afirmou o seguinte:
-Que tinha estado há pouco tempo em Angola e que tinha reparado que não se falava a língua portuguesa correctamente.
Ora justamente pelas suas responsabilidades ( a posição que o senhor ocupa) acho que o senhor também não falou correctamente o português no que foi logo também referenciado pelo Senhor Joseph Levi , também presente nesse debate televisivo. Aliás o Senhor reconheceu o seu erro ao dizer “ que não era bem aquilo que queria dizer”… reconheça que não usou bem a língua portuguesa.
Senhor Reitor, fique pois ciente que a língua portuguesa está a ser mal falada na Universidade dos Açores ( realidade que conheço), na imprensa escrita e falada, e em qualquer outro lado do planeta onde esteja a acontecer o uso do português se seguirmos à risca a sua linha de pensamento na afirmação- de que em Angola não se fala bem o português-.
Relembro o senhor reitor que a língua portuguesa é uma língua viva, e não serão as cargas nostálgicas que terão poder sobre a vivacidade de uma língua. Se é Viva deixem na viver. Se ela é viva tem que reflectir o meio em que está inserida. Se não ainda hoje por exemplo devíamos era falar o português medieval: “e o que a acusar aja o dobro pêra ssy” não é verdade senhor Reitor?
Se me permite deixo lhe aqui uma mensagem:
Você levou baçula do erro!!
2009-02-11
TEIA DA VIDA
em solidão ficara , partira a noite…
desmamadamente chora a criança
perante o seco seio maternal…
não, não é destes nadas que
quero
falar.
não temos tempo...
encurtemos.
a teia da vida tece e destece nos,
pensamento pele, pensamento ausente,
repito,
nós… à boca das nascentes.
nós… saciamos de tanta água.
que jorra, áridos produzidos.
que dois, humanos, estamos.
corpo escrito,
tacto a tacto,
segredados,
ao ouvido,
o silêncio,
é dor
humana.
2009-02-04
Deusas - Prostitutas - Santas
A Lilitu suméria transitou com esse nome para a mitologia judaica e para os comentários sobre as Escrituras.O macho através dos sacerdotes negava/dividia a essência natural da divindade feminina, atribuindo a espiritualidade, a sabedoria e a virgindade da deusa a um princípio masculino abstracto e aos seus apetites carnais uma causa feminina.
Negando a santidade ao sexo, as sacerdotizas eram muitas vezes prostitutas[1], negava-se assim a possibilidade de uma mulher ser santa.
Pitágoras, um filósofo do século VI a.C. afirmou:
“ Existe um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem; e outro mau que originou o caos, as trevas e a mulher”. Sem qualquer maldade ou segunda intenção ,pergunto-me , se acaso este Pitágoras não teria sido homosexual?
Mais tarde o cristão São Paulo reforçava desta maneira: “ que o sexo era uma necessidade lamentável e que o melhor era que um homem não tocasse numa mulher”. A ser assim , como se reproduziria o ser humano?
Este “trajecto” de deusa para prostituta, cristalizou bem “gravado” na memória colectiva humana. Para cimentar este conceito foram elaboradas várias histórias ao longo dos tempos, convertidos em mitos, dos quais citarei só dois: Lilith e Eva.
--Lilith a essência da sexualidade depravada, foi criada a partir da metade feminina de Adão ( pois então, o Adão tinha uma feminilidade) ou da imundície e do sedimento ( o sémen?) impuro e não do pó ou da terra. Lilith lançou-se um dia sobre Jeová, quando exigiu ficar por cima, no acto sexual com Adão. Ao descobrir o segredo do nome de Jeová, exigiu-lhe asas que lhe permitiriam abandonar o céu e viver em liberdade, mas com este acto teve de deixar os filhos. Percebe-se a forte coacção psicológica no indivíduo mulher´: o filho é o maior tesouro da mãe.--
Eva no Jardim do Éden. Miniatura turca de c. 1595 d.C.Sintomático é que em termos históricos, as deusas do amor, são as individualidades mais conhecidas, mais populares e mais invocadas de qualquer Panteão.
Avancemos no tempo. Em 1954, a igreja católica declarou oficialmente que Maria era a “Rainha do Céu”, vários séculos depois de este se ter tornado um dos seus títulos mais usados, pois pelo menos desde o século V d.C. que a virgem era considerada uma co-redentora e uma intercessora da humanidade junto de Deus. Maria só tem jus à hyperdulia que é um direito dos santos. Portanto Deusa nunca mais, concedia-se no entanto a benesse de ela ser Santa.
A Madona Negra de Notre-Dame aux-Neiges,Aurilac, FrançaPergunto se a institucionalização da tomada da pílula pela mulher, no processo anticoncepcional, é outra vez o castigo dado pela “divindade masculina”? É que a anticoncepção, julgo eu, poderia ser executada no corpo masculino .
[1] “ A prostituição sagrada era uma forma vulgar e honrosa de culto religioso em muitas civilizações europeias antigas, como as da Grécia, Roma e Próximo Oriente.
HUSAIN, Shahrukh, Divindade Femininas, Colónia, Duncan Baird Pub., 1997
2009-01-28
Divindades Femininas
Venus de Lespugue- Estatueta feminina típica do PaleolíticoO termo “pré-história” generalizou-se cerca de 1865 com a publicação da obra Prehistoric Times do inglês John Lubeck.. Este inglês advogava as ideias de Jacques Boucher de Perthes que já em 1841 associara os artefactos humanos de pedra lascada aos fósseis de animais extintos, pondo em causa a saga Bíblica, quer dizer o ser humano reportava para lá ( antes de) do nascimento bíblico. Compreensivelmente isto originou um vasto programa internacional de explorações e escavações em busca de vestígios.
No seu livro O Asno de Ouro, o filósofo grego Apuleio ( 125 d.C.)dá-nos conta dos inúmeros nomes que a deusa Ísis adquiria quando venerada pelos povos da terra.
Uma colectânea de textos ( na sua maioria) gnósticos , escritos nos séculos II e III d.C. e descobertos no Egipto em 1945, são os escritos de Nag Hammadi que num deles o narrador é uma voz feminina, talvez a de Ísis, ou da gnóstica Sofia ( ou Sabedoria). A voz refere-se a si mesma como “Trovão; Mente Perfeita”, nos seguintes termos:
Pois eu sou a primeira e a última.
Eu sou aquela que veneram e de quem zombam.
Eu sou a prostituta e a santa.
Eu sou a vida e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou os membros da minha mãe.
Eu sou a estéril e muitos são seus filhos.
Eu sou aquela cujo matrimónio é grande e que não tomou marido.
Eu sou a parteira que não dá à luz.
Eu sou a consolação das minhas dores de parto.
Eu sou a noiva e o noivo e foi o meu marido que me procriou.
Eu sou a mãe do meu pai e a irmã do meu marido, e ele é o meu rebento…
Ouçam-me com atenção.
Eu sou a desgraçada e a grandiosa.
Isis abraça Osiris, seu marido e irmão
2009-01-18
Àtoa*
o sol ( a clave) em si, em mim, não é,
não sendo, Savanas se revelam no dó musical.
Reino de Kamdimba , dorido, se apresenta mais a sul ,
um pé aqui outro ali fora da caverna ,
as distâncias mantêm , superam , esvoaçam,
os escombros da razão, fora os veres e vezes.
A sinalética é rudimentar agora que o rio transborda,
descobrem se fundos e lodos,
engodos… originarium… a soberania… não te dizia?
Um tambarindo de carácter agridoce, na boca,
marcadamente ácido na alma.
*Àtoa ( à deriva, sem rumo, perdido ex: como é madié, tás àtoa ou quê?)
2009-01-10
BOCA DE CENA
“O que as pessoas comem (ou não comem) sempre foi determinado por uma interacção complexa de forças sociais, económicas e tecnológicas. A antiga República de Roma era alimentada por seus cidadãos agricultores; o Império Romano, por seus escravos. A dieta de um país pode ser mais reveladora que sua arte ou literatura.”
(Eric Schlosser).
O objecto da História da Alimentação tem entradas e saídas múltiplas, pois diz respeito ao tempo e ao espaço, atravessa o cruzamento do biológico e do cultural, do social e do económico, do político e do religioso, das ciências e das técnicas, das atitudes e comportamentos, das normas e representações. Nesse sentido, a questão da alimentação situa-se no coração de nossas preocupações e em qualquer reflexão sobre a evolução da sociedade.
A formação do gosto alimentar e o nosso comportamento referente à comida vão além do biológico e do nutricional. O alimento constitui uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social. Os alimentos não são somente alimentos.
Alimentar-se é um ato nutricional, comer é um ato social, pois constitui atitudes ligadas aos usos, costumes, protocolos, condutas e situações. Nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro. A historicidade da sensibilidade gastronómica explica e é explicada pelas manifestações culturais e sociais, como espelho de uma época e que marcaram uma época. Nesse sentido, o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. Enfim, este é o lugar da alimentação na História.
Do exposto, a História da Alimentação se insere nas formas de organização material e simbólica e nas manifestações do poder nas sociedades. No âmbito de tais manifestações, as relações cultura e poder exaltam a compreensão de que as diversas formas de representação social podem ser entendidas como actuantes num processo de modelagens de comportamento, hábitos e atitudes que se remete a estas manifestações de domínio, de poder. Nesse sentido, o conceito de poder é amplo, não se tratando exclusivamente do poder pela força ou de dominação de ponto de vista material. Tal compreensão implica em considerar o entendimento do poder como um universo de relações que abarcam um conjunto de recursos simbólicos, imaginários, comportamentais, enfim, de domínio cultural.
Desta forma, o alimento é passível de influenciar a construção da identidade e a natureza daquele que o ingere, pois uma dimensão do gosto é influenciada pelo imaginário.
O ser humano é aquilo que come, portanto o ser humano é aquilo que é! Somos o que comemos ou comemos o que somos? Tais concepções e questões nos remetem às vinculações cada vez mais acentuadas entre a alimentação e os seus diversos cruzamentos bem como às diversas formas de sociabilidade activas. Desta maneira, a nossa relação com a comida implica que, de acordo com FISCHLER, “Incorporar um alimento é, tanto no plano real como no imaginário, incorporar tudo ou parte de suas propriedades: chegamos a ser o que comemos, sendo que a incorporação funda a identidade”.
Em outros termos, o consumo alimentar não está somente ligado ao mercado e aos mecanismos económicos globais de tal sociedade, aos preços, custos e rendas, mas sim em grande parte condicionado pelos fenómenos de ordem cultural: o alimento que se prefere, aquele que se tolera aquele que se exclui e aquele de que não se gosta.
Neste ensaio pretende-se e aplicando uma metodologia qualitativa, uma definição das várias dimensões existentes no contexto Restaurante/ Consumo/ Cliente a saber: ocasião, atmosfera comida e elemento marcante.
Este contexto de consumo em restaurante revela-nos uma construção simbólica de avaliação, que pode mesmo ultrapassar a importância dada ao alimento.

OSBORNE, Richard, LOON, Borin van, Sociologia para principiantes, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.
O Restaurante Boca de Cena está situado no Largo de São João em frente ao Teatro Micaelense inserido na parte histórica da cidade de Ponta Delgada.
Tem capacidade para quarenta pessoas e está decorado com as cores negra no chão e tecto, bege nas paredes e do tecto caem franjas de fios pretos ao longo e por cima das paredes do restaurante. As mesas são pretas com toalhas bege e faz-se o uso de velas acesas sobre a mesa. O custo médio por refeição é de 16 euros e o ambiente musical é marcado pelo jazz e lounge como estilos.
Tem uma ementa que sai fora do tradicional, ou pelo menos do mais comum servido em espaços similares dentro da cidade de Ponta Delgada. O Chefe da cozinha, é também o proprietário do espaço, idealizou um misto de cozinha mediterrânica em combinação com outros componentes exóticos, o que origina a disponibilização de uma refeição “ diferente”.
Para além de ser um local provedor de alimentação, constitui-se em um espaço social onde os actores interagem, e que embora condicionados pelo normativo ( ritual estereotipado do comportamento em espaço de consumo de comida) vulgo as etiquetas, formalidades de como servir, os homens na sua maioria como os provadores dos vinhos,
etc., revelam alguns “desvios” comportamentais.
Assim há a considerar três campos: a cozinha com um chefe e um ajudante, a sala de refeições com um funcionário e o campo exterior ( a Cidade) constituído pelos potenciais clientes.
Circunscrevemos a análise ao período da noite (jantar) e que vai das 19 horas às 24 horas e consideramos todos os dias da semana excepção feita ao Domingo por se encontrar fechado.
Sob a ideia de uma construção social da realidade e para além do interacionismo simbólico, os indivíduos não sofrem passivamente a realidade social; eles descrevem e interpretam sem descontinuidades as suas experiências[1], a fim de darem um sentido às suas acções e dos outros. Fazendo assim e segundo A. Schütz, reconstituem constantemente a realidade que não existe senão através dessa incessante actividade.
Tanto a cozinha como a sala assumem parâmetros a respeitar., transformados em regras por qual se orientam em nome do bom e regular funcionamento do serviço. A comunicação entre a cozinha e o cliente é intermediada pela sala de refeições e por via electrónica e na pessoa do empregado de mesa que neste caso é também a pessoa que realiza a análise sendo portanto observador/participante.

George Herbert Mead (1863-1931), o homem responsável pela abordagem interaccionista simbólica, salientou que o ser humano é a única espécie que pode usar linguagem e, por isso, planear, pensar e comunicar experiências.
AS DIMENSÕES
Pretende-se entender o comportamento do consumidor em restaurante, não apenas sob os conceitos da estratégia de marketing, mas sim a partir de uma contextualização sociocultural, ou seja identificar não o factor que leva à compra do serviço, mas sim identificar a partir da experiência, os factores que podem ter contribuído, para a construção de uma experiência gratificante.
O método qualitativo de pesquisa suscita debate e dúvidas no que se refere à possível dicotomia entre a pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa. A combinação de diferentes métodos é reconhecida como elemento contributivo para a compreensão das variáveis.
Neste estudo não somos tão ambiciosos, por isso, e centrando-nos na comensalidade, tomando como ideia o prazer ou não que o individuo desfruta na tomada da refeição. Elegemos assim as dimensões ocasião, a atmosfera, o alimento consumido e o ritual do vinho, relacionando-as com as emoções envolvidas.
1- A ocasião
O que leva os indivíduos a um restaurante? Qual era a ocasião? A variável ocasião permitiu a identificação do evento assim como dos grupos. Aniversários, festa de família, encontro romântico, razões de trabalho, gosto pelo exótico etc.
O acto de comer não se restringe à questão do alimentar em si, mas representa importantes funções simbólicas e sociais. Assim , o motivo que levou ( trabalho, lazer) que levou o indivíduo a escolher um determinado estabelecimento é um elemento significativo na definição do local.
2- A atmosfera
A variável atmosfera deriva tanto do lugar em si quanto do tipo de comportamento que se tende a desenvolver em determinados ambientes. A atmosfera criada pelo restaurante afecta o modo como cliente reage quer na escolha quer no sentir-se bem no decorrer da refeição. Poderá ser um processo consciente ou subconsciente causador do impacto sensorial no cliente: Consciente (é barulhento? as mesas estão muito próximas umas das outras?) e de modo subconsciente ( clima, iluminação, móveis, música ambiente).
3- O alimento consumido
A variável comida reporta tanto ao tipo de culinária ( local, regional, internacional) quanto ao nível de sofisticação, simplicidade ou requinte das preparações, podendo expressar, ainda, questões referentes aos sentimentos, tais como: comida caseira, exótica etc.
Nenhum fez menção ao custo da refeição, mas fizeram questão de mencionar detalhes que tornavam a composição da ementa sofisticada. Parece ser mais importante a exibição do capital cultural do que do económico para demonstração de bom gosto.
4- O elemento marcante
Em relação ao questionamento do que marcou mais, percebe-se que há uma diversidade de factores mencionados e curiosamente notou-se que existia pouca ênfase no alimento e em seu sabor. Factores como gentileza do empregado, a companhia, o ambiente parecem ter mais importância. que o alimento em si.
5- O ritual do vinho
O vinho é a bebida eleita para comemorações. O servir o vinho comporta alguns gestos e ideias ritualizadas em procedimentos: se tinto ou branco, quem escolhe, quem prova etc. Sabemos que por norma é quase sempre o homem que escolhe e prova o vinho.
Nesta análise introduz-se um factor de indução a saber: o empregado pode contrariar o processo entregando a carta de vinhos às senhoras, perguntando aos dois quem faz a prova etc. Invariavelmente e seguindo os “cânones” ( entrega da carta de vinhos ao homem, interpelação directa de prova ) o protagonismo é sempre do homem. Mas se o empregado entregar a carta de vinhos à mulher e interpelá-la directamente, constatamos o assumir de novas posições, nomeadamente a escolha e prova do vinho, pela parte feminina.
Nos quadro 2 e 3 mostram-se os resultados, num com indução de comportamento noutro sem a influência do empregado.

Em a teoria da Acção Comunicativa ( 1981) Habermas adianta uma análise complexa da sociedade capitalista e os meios possíveis com se pode resistir aos efeitos da razão instrumental ( a racionalidade de Weber) através da emancipação moral e comunicativa
OS QUADROS
Foi solicitado aos clientes resposta às seguintes questões:
a) Qual era a ocasião ( aniversário, negócios, namoro etc.)?
b) Opinião sobre a atmosfera do local.
c) O que achavam da comida?
d) Qual tinha sido o elemento marcante do jantar?
Está considerado nesta síntese ( o quadro abaixo) um universo de 100 indivíduos.
A razão pela qual as pessoas tendem a comportar-se de uma maneira particular, digamos em reuniões , jantares ou noutros acontecimentos sociais, é que esse tipo de comportamento é determinado pela cultura em que as pessoas vivem.
CONCLUSÃO
As ciências sociais solicitam tanto os recursos da metodologia científica como os da subjectividade controlada pelo investigador, o que representa ao mesmo tempo uma dificuldade e uma vantagem[2].
A distinção entre lógica intencional e lógica objectiva apresenta o interesse de mostrar que as consequências dos comportamentos não podem necessariamente ser esclarecidos pelas intenções dos indivíduos que os adoptam. Os autores Remy, Voyé e Servais[3] definem a lógica intencional como “ tudo o que contribui para organizar o sentido vivido sobre o qual o actor se mobiliza e a partir do qual certas práticas são possíveis”e a lógica objectiva como “ os efeitos que decorrem de uma prática, independentemente da consciência que se tem disso”.
O interacionismo simbólico concede muito peso à lógica intencional, posto que insiste sobre as significações que os indivíduos dão às suas condutas. Mas estas significações elaboram-se em interacções que produzem elas próprias efeitos objectivos[4], como mostram os quadros aqui mostrados.
O interacionismo concentra a atenção sobre o jogo complexo, constituído por desígnios morais, rotulagens, controlos sociais e acções colectivas, cujas interacções concretas constituem, de algum modo, os átomos de base e do qual faz parte, “ de perto ou de longe”, um conjunto de protagonistas.
As relações afectivas e as representações sociais associadas ao acto de comer fazem parte daquele quadro e constituem-se em elementos explicativos das escolhas inconscientes por associação, do consumidor em restaurantes.
BIBLIOGRAFIA
CAMPENHOUT, Luc van, Introdução à Análise dos Fenómenos Sociais, Lisboa, Gradiva, Trad. Eduardo de Freitas, 2001.
HABERMASS, Jurgen, The theory of communicative action, Cambridge, Polyty Press,1995
OSBORNE, Richard, LOON, Borin van, Sociologia para principiantes, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.
REMY, J., VOYÉ, SERVAIS, E., Produire ou reproduire? Une sociologie de la vie quotidienne,t.1, Bruxelas, Editions Vie Ouvriére, 1978.
SCHÜTZ, Alfred, Le Chercher et le Quotidien, Paris, Mérediens Klincksieck, 1987.
WEBER, Max, Ensaios de sociologia, Rio de Janeiro, Zahar Editôres, 13ª.Edi., 1974.
[1] SCHÜTZ, Alfred, Le Chercher et le Quotidien, Paris, Mérediens Klincksieck, 1987.
[2] CAMPENHOUT, Luc van, Introdução à Análise dos Fenómenos Sociais, Lisboa, Gradiva, Trad. Eduardo de Freitas, 2001, p., 39.
[3] REMY, J., VOYÉ, SERVAIS, E., Produire ou reproduire? Une sociologie de la vie quotidienne,t.1, Bruxelas, Editions Vie Ouvriére, 1978, p., 93.
[4] CAMPENHOUT, Ob. cit. p., 69.


























